Quem acompanha indicadores macroeconômicos para planejar investimentos, precificar contratos de longo prazo ou avaliar o risco-país costuma se deparar com uma aparente contradição nos relatórios sobre o Brasil. De um lado, as estatísticas oficiais divulgadas em Brasília mostram a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) em 82,9% do PIB pela metodologia do Banco Central (observação em agosto de 2026). De outro lado, os relatórios internacionais mostram que a dívida brasileira atingiu 93,3% do PIB encerrados em 2025, com projeção anual de 97,8% do PIB para 2026 na consulta oficial do Artigo IV do FMI (IMF Country Report No. 26/191).
Mais de 10 a 14 pontos percentuais do PIB separam as duas leituras, o equivalente a bem mais de R$ 1,3 trilhão de diferença sobre um PIB que somou R$ 12,7 trilhões em 2025.
Não há fraude nem erro de soma em nenhum dos dois lados. O que existe é uma fascinante diferença de arquitetura institucional e contábil entre o Brasil e o padrão internacional. Compreender essa diferença ajuda qualquer líder de negócios a ler relatórios econômicos sem cair em armadilhas superficiais.
1. Como funciona a relação entre Tesouro e Banco Central no Brasil
Para entender a divergência, precisamos primeiro observar uma peculiaridade da legislação brasileira (como a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Constituição de 1988).
Em muitos países desenvolvidos, o Banco Central controla a liquidez diária da economia (enxugando ou injetando dinheiro nos bancos para manter a taxa de juros na meta) emitindo títulos próprios ou remunerando depósitos voluntários diretamente. No Brasil, a Lei de Responsabilidade Fiscal proibiu o Banco Central de emitir títulos próprios da dívida pública a partir de 2002.
Para que o Banco Central brasileiro pudesse fazer política monetária e enxugar o excesso de reais do mercado (por exemplo, por meio das chamadas operações compromissadas), o Tesouro Nacional precisou emitir um grande volume de títulos públicos e entregá-los à carteira do Banco Central.
Assim, dentro do cofre do Banco Central do Brasil existem duas parcelas de títulos do Tesouro:
- A parcela entregue ao mercado em operações compromissadas: o BC vende o título hoje aos bancos privados para tirar dinheiro de circulação e se compromete a recomprá-lo amanhã ou daqui a algumas semanas, pagando a taxa Selic.
- A carteira livre do Banco Central: títulos emitidos pelo Tesouro que estão guardados no balanço da autoridade monetária como colchão operacional, sem terem sido repassados aos bancos privados naquele momento.
2. A régua do BCB (desde 2008) versus a régua do FMI
É exatamente no tratamento dessa segunda parcela (os títulos livres na carteira do BC) que as duas metodologias se separam.
Em 2008, o Banco Central do Brasil atualizou sua metodologia da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) com um argumento econômico defensável: se um título emitido pelo Tesouro está parado no cofre do próprio Banco Central e não foi vendido ao setor privado, ele representa uma dívida intragovernamental sem impacto líquido no mercado. Portanto, a metodologia do BCB soma na dívida bruta todas as operações compromissadas, mas exclui os títulos livres na carteira do BC, resultando nos 82,9% do PIB em agosto de 2026.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) aplica uma regra padronizada para comparar quase 200 países. Na contabilidade internacional do FMI, o “Governo Geral” compreende Tesouro, Previdência, Estados e Municípios, tratando o Banco Central à parte. Logo, todo título emitido pelo Tesouro na carteira do Banco Central é contabilizado pelo FMI como dívida bruta. Por isso, na consulta oficial do Artigo IV (IMF Country Report No. 26/191), o número brasileiro fechou 2025 em 93,3% do PIB, com projeção anual de 97,8% do PIB para 2026.
| Critério Metodológico | Metodologia Banco Central do Brasil (BCB) | Metodologia Internacional (FMI Artigo IV) |
|---|---|---|
| Patamar observado / projetado | 82,9% do PIB (observação em agosto de 2026) | 93,3% do PIB (fechamento 2025) / 97,8% do PIB (projeção 2026) |
| Operações compromissadas do BCB no mercado | Incluídas na Dívida Bruta | Substituídas pelo total de títulos do Tesouro no BCB |
| Títulos do Tesouro livres na carteira do BCB | Excluídos (tratados como intragovernamentais) | Incluídos integralmente na Dívida Bruta |
| Utilidade principal da métrica | Medir o passivo efetivo junto ao mercado privado | Comparar o Brasil com outros países e agências de rating |
3. Onde as duas curvas concordam: a velocidade dos juros
Seja qual for a régua preferida, há um ponto em que o Banco Central e o FMI convergem: a inclinação da curva e o peso financeiro. Segundo a nota de estatísticas fiscais do BCB de 30 de setembro de 2026, o setor público consolidado acumulou em 12 meses até agosto de 2026 um total de R$ 1,18 trilhão (R$ 1.182,2 bilhões) em juros nominais apropriados por competência (métrica que registra os juros incorporados ao estoque da dívida e o resultado de swaps cambiais, distinguindo-se de desembolso imediato em caixa), o equivalente a 8,86% do PIB.
4. Qual número você deve usar na sua análise?
Para diretores financeiros, gestores e líderes de tecnologia:
- Na dinâmica doméstica mensal, acompanhe os 82,9% do PIB do Banco Central, que refletem o volume de dívida que disputa poupança privada nos bancos e fundos locais.
- Em comparações internacionais (onde a média de emergentes gira entre 55% e 65% do PIB) ou análises de agências de risco (Moodys, S&P e Fitch), utilize a régua do FMI (93,3% em 2025 e 97,8% projetados para 2026), pela qual o capital global precifica o risco soberano do país.
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Pela metodologia do Banco Central, a dívida bruta ficou em 82,9% do PIB em agosto de 2026. Já pelo critério do FMI (Artigo IV), fechou 2025 em 93,3% com projeção de 97,8% em 2026.
Fonte: BCB (30/09/2026) e FMI Artigo IV (IMF Country Report No. 26/191).
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Cesar Zanis
Arquiteto de Software e executivo de tecnologia com mais de 15 anos trabalhando com sistemas críticos, custos, dados e metas verificáveis. Nesta editoria, aplico o pensamento de quem trabalha com indicadores, processos e resultados para analisar economia, gestão pública e sociedade.
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