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CESAR ZANIS
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Crédito direcionado vs. crédito livre: por que metade do dinheiro barato encarece a outra metade

Sente-se para conversar com qualquer empreendedor brasileiro do setor de serviços, indústria de transformação, comércio ou tecnologia e faça uma pergunta simples: qual é o maior freio para você expandir sua operação este ano? Em nove de cada dez conversas, a resposta será imediata: o custo absurdo do crédito para capital de giro e investimento.

Enquanto grandes corporações multinacionais ou setores específicos conseguem captar recursos a taxas próximas ou até inferiores ao CDI, a imensa maioria das empresas brasileiras que vai ao balcão de um banco buscar financiamento no chamado mercado de crédito livre encontra taxas efetivas que parecem pertencer a outro planeta econômico.

Por que o spread bancário (a diferença entre o que o banco paga para captar o dinheiro e o que ele cobra do tomador final) e o juro empresarial são tão altos no Brasil? Além do problema fiscal que mantém o juro neutro em torno de 5% reais ao ano, existe uma distorção microeconômica tipicamente brasileira: o sistema da “meia-entrada” no mercado de crédito.

1. Dois mercados que não pagam a mesma conta

Quando olhamos para as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas mensalmente pelo Banco Central do Brasil, o estoque total de empréstimos e financiamentos do Sistema Financeiro Nacional gira em torno de R$ 6,2 trilhões a R$ 7,0 trilhões (aproximadamente 54% a 55% do PIB).

A curiosidade que poucos observam é que esse bolo está partido quase ao meio em dois regimes completamente distintos:

  1. O Crédito Direcionado (cerca de 42% a 45% de todo o estoque): são recursos que, por força de lei ou regulação governamental, precisam obrigatoriamente ser emprestados para finalidades carimbadas (crédito rural, financiamento imobiliário via poupança e FGTS, e linhas de bancos públicos de desenvolvimento como o BNDES), com taxas de juros tabeladas ou fortemente subsidiadas.
  2. O Crédito Livre (cerca de 55% a 58% do estoque): é onde está todo o restante da economia real, incluindo o desconto de duplicatas, o capital de giro das pequenas e médias empresas, o financiamento de veículos, os empréstimos pessoais e o cartão de crédito. Aqui, as taxas são definidas livremente pelo risco e pelo custo de captação.
Indicador do Mercado de Crédito no BrasilCrédito LivreCrédito Direcionado
Participação aproximada no estoque total~57% do crédito total~43% do crédito total
Taxa média de juros (Pessoas Jurídicas)~18% a 24% a.a. (muito superior em PMEs)~10% a 12% a.a. (frequentemente abaixo da Selic)
Taxa média de juros (Pessoas Físicas)~50% a 55% a.a. (puxada por rotativo e pessoal)~9% a 10% a.a. (imobiliário, rural e microcrédito)
Sensibilidade à subida da taxa SelicAltíssima e imediataBaixa (taxas pré-fixadas por lei ou pós-fixadas suaves)

Fonte de referência: séries históricas das Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central do Brasil.

2. Como o crédito direcionado sabota a potência da Selic

À primeira vista, criar linhas de crédito direcionado com juro barato parece uma ideia generosa para estimular o desenvolvimento. Na prática macroeconômica, porém, quando esse direcionamento atinge quase metade de todo o sistema financeiro, ele gera dois efeitos colaterais graves documentados pelo próprio Banco Central e pelo FMI.

O primeiro efeito é a obstrução dos canais de transmissão da política monetária. Imagine que você está dirigindo um carro a 120 km/h e precisa reduzir a velocidade antes de uma curva (conter a inflação). Em um país normal da OCDE, quando o Banco Central pisa no freio (sobe a taxa básica de juros), as quatro rodas do carro freiam juntas.

No Brasil, como 43% do crédito é direcionado a taxas que quase não mudam quando a Selic sobe, duas rodas do carro estão desligadas do pedal de freio. Para conseguir parar o veículo usando apenas as duas rodas que respondem ao comando (os 57% do crédito livre), o Banco Central brasileiro é obrigado a pisar no freio com o dobro da força! Ou seja: a taxa Selic precisa subir muito mais e ficar alta por muito mais tempo porque metade do crédito da economia é insensível a ela.

O segundo efeito é o subsídio cruzado: quando a regulação obriga os bancos a destinarem fatias enormes dos depósitos à vista e da poupança para operações com margem baixa ou tabelada, a rentabilidade e o custo administrativo da infraestrutura bancária acabam sendo recuperados nas tarifas e nos spreads cobrados sobre os clientes do crédito livre.

3. A anatomia do spread: garantias, impostos e inadimplência

Além da divisão entre livre e direcionado, os Relatórios de Economia Bancária do Banco Central decompõem os demais ingredientes que tornam o crédito livre tão caro no Brasil:

  • Inadimplência e custo de recuperação de garantias: mais da metade do spread bancário brasileiro vem das perdas com inadimplência. No Brasil, quando um devedor empresarial ou individual dá um bem em garantia e não paga, o processo judicial para recuperar aquele ativo pode levar anos. Na média mundial, credores recuperam mais de 70 centavos por dólar emprestado em garantias reais; no Brasil, historicamente recuperava-se menos de 20 a 30 centavos (cenário que o recente Marco Legal das Garantias tenta melhorar).
  • Cunha fiscal e compulsórios: o Brasil é um dos únicos países do mundo que cobra imposto direto na veia de quem toma empréstimo (IOF), além de tributar a receita de intermediação com PIS/Cofins e aplicar alíquotas mais altas de CSLL sobre instituições financeiras. Tudo isso é repassado integralmente ao tomador final na ponta.

4. Lições práticas para a gestão financeira da sua empresa

Enquanto o país avança gradualmente em reformas microeconômicas (como o Cadastro Positivo, o Open Finance, a duplicata escritural eletrônica e a aproximação da TLP do BNDES às taxas de mercado), quem lidera uma empresa precisa operar com inteligência financeira:

  1. Nunca financie projetos de longo prazo com linhas de curto prazo do crédito livre: usar conta garantida ou capital de giro bancário tradicional para pagar o desenvolvimento de um novo software ou a compra de equipamentos é a receita mais rápida para transferir todo o seu lucro operacional para o banco.
  2. Use seus recebíveis e a cadeia de clientes como garantia limpa: antecipação de recebíveis performados de grandes clientes ou fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) costumam ter taxas drasticamente menores do que empréstimos sem garantia real (clean).
  3. Mapeie linhas de fomento à inovação para P&D: se o sistema brasileiro tem balcões direcionados para inovação e engenharia (como linhas da Finep e BNDES para transformação digital e desenvolvimento de tecnologia nacional), uma empresa de engenharia bem organizada e com contabilidade auditada não deve deixar esse recurso na mesa enquanto seus concorrentes o utilizam.
Cesar Zanis / Economia e contas públicas

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Slide 01 de 06
Um sistema financeiro partido em dois mundos diferentes

Do estoque total de crédito do Sistema Financeiro Nacional (cerca de 54% a 55% do PIB), aproximadamente 42% a 45% são recursos direcionados e apenas a outra metade é crédito livre.

Fonte: Banco Central do Brasil, Estatísticas Monetárias e de Crédito.

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Cesar Zanis
Análise autoral de·Tecnologia, Gestão e Economia

Cesar Zanis

Arquiteto de Software e executivo de tecnologia com mais de 15 anos trabalhando com sistemas críticos, custos, dados e metas verificáveis. Nesta editoria, aplico o pensamento de quem trabalha com indicadores, processos e resultados para analisar economia, gestão pública e sociedade.

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