Em 1960, qualquer economista que apostasse no futuro da Coreia do Sul contra o Brasil seria chamado de insensato. Recém-saída de uma guerra devastadora na década anterior, sem reservas relevantes de petróleo, minério de ferro ou terras agrícolas abundantes, a economia sul-coreana registrava uma renda por habitante equivalente a cerca de US$ 1.200 em valores ajustados. Suas principais pautas de exportação eram peixe seco, minério de tungstênio e perucas feitas com cabelo humano.
No mesmo período, o Brasil já vivia a euforia da industrialização acelerada, atraía montadoras multinacionais e exibia uma renda per capita consideravelmente maior que a asiática. Mais de seis décadas depois, os papéis se inverteram de maneira dramática. A Coreia do Sul alcançou o patamar de US$ 33.000 de Renda Nacional Bruta (RNB) per capita, consolidada como uma potência tecnológica de alta renda. O Brasil, por sua vez, fechou 2025 com uma RNB per capita de US$ 10.550 pelo método Atlas do Banco Mundial, abaixo do limiar de US$ 14.375 que define o grupo de países desenvolvidos no ano fiscal de 2027.
O que aconteceu no meio do caminho não foi sorte nem milagre cultural. Foi uma execução disciplinada daquilo que o Banco Mundial, em seu World Development Report 2024 (WDR 2024), batizou de estratégia 3i: a transição sequencial entre Investimento (1i), Infusão (2i) e Inovação (3i).
1. O diagnóstico da armadilha da renda média
O estudo do Banco Mundial analisou mais de um século de história econômica global e chegou a uma conclusão incômoda: desde 1990, apenas 34 economias conseguiram fazer a transição da renda média para a alta renda, e mais de um terço delas contou com a integração à União Europeia ou com a descoberta de grandes reservas de petróleo em populações pequenas.
A maioria dos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, trava quando esgota o modelo baseado apenas em adicionar mais mão de obra e capital básico (o estágio 1i, de investimento puro). Ao perceberem que o crescimento desacelerou, muitos governos cometem o erro de tentar saltar diretamente para o estágio 3i (inovação de fronteira), criando programas isolados de subsídio enquanto o restante da economia continua operando com processos arcaicos, baixa concorrência e mão de obra sem domínio técnico.
| Dimensão Estratégica | Modelo Coreia do Sul (1960 a 2025) | Modelo Brasil (1960 a 2025) |
|---|---|---|
| Renda per capita em 1960 (ajustada) | ~US$ 1.200 | Superior à sul-coreana no período |
| RNB per capita recente (Atlas) | ~US$ 33.000 (Alta renda) | US$ 10.550 em 2025 (Renda média-alta) |
| Taxa de investimento sobre o PIB | Acima de 30% por décadas | 16,8% do PIB em 2025 (IBGE) |
| Orientação comercial | Disciplina de exportação e competição global | Fechamento tarifário e reserva de mercado |
| Foco educacional inicial | Matemática, ensino técnico e engenharias | Expansão tardia com baixa proficiência básica |
2. Como a Samsung saiu do peixe seco para os semicondutores
Para entender o estágio intermediário decisivo, a Infusão (2i), basta observar a trajetória da Samsung. Quando Lee Byung-chul fundou a empresa em 1938, o negócio consistia em um pequeno armazém comercial que exportava peixe seco, vegetais e macarrão para a China, passando depois pelo refino de açúcar e pela indústria têxtil.
Quando a Samsung decidiu entrar no setor de eletrônicos, em 1969, ela não tentou inventar um televisor do zero nem pediu ao governo que proibisse a entrada de conhecimento externo. Pelo contrário: formou joint ventures com as japonesas Sanyo e NEC. Engenheiros sul-coreanos foram enviados ao Japão para aprender como montar tubos de imagem, controlar qualidade na linha de produção e gerenciar fornecedores.
Nos anos 1970 e 1980, a empresa desmontou aparelhos de micro-ondas e chips de memória norte-americanos e japoneses, licenciou patentes estrangeiras, contratou especialistas internacionais e treinou milhares de técnicos locais. Só depois de dominar profundamente a engenharia de manufatura existente no mundo (a fase de infusão tecnológica) é que a Samsung teve escala financeira e densidade intelectual para inaugurar, nos anos 1990 e 2000, a fase de inovação na fronteira (3i), superando suas antigas professoras japonesas.
3. Onde o Brasil errou na sequência
Enquanto a Coreia do Sul condicionava o crédito estatal ao desempenho exportador no competitivo mercado mundial, o Brasil protegeu o mercado interno contra a concorrência e encareceu a importação de máquinas, softwares e componentes.
Ao tentar produzir tudo internamente sem escala global, elevamos o custo de capital para todas as cadeias. Em 2025, a Formação Bruta de Capital Fixo (taxa de investimento) brasileira ficou em 16,8% do PIB segundo o IBGE, insuficiente até para o estágio 1i. Além disso, no PISA, apenas 28% dos jovens brasileiros atingem o nível mínimo de matemática contra 65% na OCDE, travando a absorção tecnológica das empresas.
4. Lições práticas para quem lidera tecnologia e negócios
A lógica das três etapas do Banco Mundial aplica-se diretamente à liderança de tecnologia, engenharia e operações no Brasil:
- Domine a infusão antes da invenção: muitas organizações gastam milhões tentando criar arquiteturas exóticas do zero enquanto seus processos de testes automatizados, observabilidade e governança de dados ainda são precários. Implementar com excelência padrões já validados globalmente gera retorno muito mais rápido.
- Exponha seu produto a padrões globais: mesmo atuando no mercado interno, meça sua latência, seu custo unitário e sua produtividade por engenheiro usando réguas internacionais.
- Invista na base técnica do time: a infusão tecnológica exige profissionais capazes de ler documentação complexa, entender estatística, depurar sistemas e adaptar ferramentas ao negócio.
A Coreia do Sul provou que nenhum país está condenado pela fotografia inicial. Romper a armadilha da renda média exige humildade para absorver o que o mundo faz bem, disciplina em engenharia e coragem para competir.
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Em 1960, a Coreia do Sul tinha renda per capita ajustada de cerca de US$ 1.200 e dependia de ajuda externa, enquanto o Brasil já possuía parque industrial e renda superior.
Fonte: Banco Mundial, World Development Report 2024 (WDR 2024).
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Cesar Zanis
Arquiteto de Software e executivo de tecnologia com mais de 15 anos trabalhando com sistemas críticos, custos, dados e metas verificáveis. Nesta editoria, aplico o pensamento de quem trabalha com indicadores, processos e resultados para analisar economia, gestão pública e sociedade.
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