Existe um vício cultural muito comum tanto em políticas industriais de governos quanto em departamentos de engenharia de grandes empresas: a síndrome do “não inventado aqui”. Acredita-se que inovar significa trancar uma equipe em uma sala do zero, ignorar o que o resto do mundo já testou e tentar criar uma solução inédita. Na prática econômica e tecnológica, porém, os casos mais espetaculares de transformação produtiva começaram exatamente pelo caminho inverso: absorver, adaptar e escalar métodos que já funcionavam lá fora.
Um dos exemplos mais didáticos dessa estratégia na América Latina, destacado pelo Banco Mundial no World Development Report 2024, é a criação da indústria do salmão no Chile.
1. Um peixe do hemisfério norte nos mares do sul
O salmão não é uma espécie nativa do hemisfério sul. Até o início da década de 1970, o Chile praticamente não existia no mapa mundial da aquicultura comercial desse peixe. No entanto, a região sul do país, especialmente em torno de Chiloé e Puerto Montt, possuía águas frias, oxigenadas, protegidas por ilhas e fiordes muito semelhantes às condições naturais da Noruega, do Canadá e do norte do Japão.
Ter recursos naturais parecidos, contudo, não gera uma indústria automaticamente. O Brasil possui costa extensa, sol, água doce e biodiversidade, e sabe bem que a geografia sozinha não garante liderança global em cadeias de alto valor agregado. O que faltava ao Chile nos anos 1970 era engenharia produtiva: como reproduzir alevinos em cativeiro com baixa mortalidade, qual a formulação exata da ração, como desenhar as gaiolas flutuantes para suportar correntes marinhas e como montar uma cadeia logística refrigerada capaz de entregar peixe fresco em Tóquio ou Miami em 48 horas.
2. O papel da Fundação Chile: reduzir o risco técnico do pioneiro
Em 1976, surgiu a Fundação Chile, uma instituição público-privada sem fins lucrativos criada inicialmente em parceria com a corporação norte-americana ITT. Em vez de distribuir subsídios a fundo perdido para empresas inexperientes ou financiar pesquisas puramente teóricas desconectadas do mercado, a Fundação adotou uma abordagem cirúrgica de infusão tecnológica.
O roteiro executado nos anos 1980 seguiu quatro passos de engenharia de negócios:
- Aquisição de tecnologia validada: em 1981, a Fundação Chile comprou as instalações da Domsea Farms, uma subsidiária norte-americana que fazia testes iniciais no sul chileno, e trouxe especialistas da Noruega, da Escócia e dos Estados Unidos para transferir protocolos reais de cultivo em tanques-rede marinhos.
- Construção de uma operação comercial em escala real: a Fundação criou a empresa Salmones Antártica como um laboratório vivo com fins lucrativos. O objetivo era provar na prática, com balanço auditado, que era possível criar salmão no Chile cumprindo os padrões sanitários mais exigentes do mundo.
- Transferência aberta e formação de fornecedores: à medida que resolvia gargalos locais (como adaptação de vacinas, densidade das gaiolas e fabricação local de ração), a instituição treinava engenheiros de pesca, veterinários e técnicos chilenos, além de prestar consultoria para empresários locais que queriam abrir suas próprias fazendas marinhas.
- Saída do negócio após validar o mercado: em 1988, depois que a viabilidade econômica estava comprovada e dezenas de empresas privadas já operavam no setor, a Fundação vendeu a Salmones Antártica em leilão internacional para o grupo japonês Nippon Suisan por mais de US$ 21 milhões, recuperando todo o capital investido e reiniciando o ciclo em novos setores (como frutas vermelhas e vinhos de precisão).
| Indicador da Indústria Chilena de Salmão | Anos 1970 | Anos 2020 |
|---|---|---|
| Produção comercial anual | Praticamente zero (testes artesanais) | Mais de 1 milhão de toneladas anuais |
| Participação na oferta global | 0% | ~26% a 30% (2º maior produtor do mundo, atrás da Noruega) |
| Receita anual de exportação | Inexistente | Acima de US$ 6 bilhões por ano |
| Ecossistema técnico | Sem especialistas locais | Rede global de laboratórios, vacinas, ração e logística fria |
3. O que o Brasil e as empresas de tecnologia aprendem com isso
O sucesso do salmão chileno ilustra o estágio 2i (Infusão) da estratégia do Banco Mundial. O Chile não começou tentando editar o genoma do peixe (estágio 3i). Começou importando o manual de operações norueguês e japonês, executando-o com disciplina e construindo uma cadeia competitiva. Só depois de conquistar quase um terço do mercado mundial é que o cluster chileno avançou para pesquisas próprias em genética e biotecnologia marinha.
No Brasil, vimos algo semelhante na adaptação da soja ao Cerrado pela Embrapa nos anos 1970 e 1980, mas na maior parte da indústria e dos serviços ainda resistimos à infusão sistemática de boas práticas. Para líderes de engenharia de software, produto e operações, a lição chilena é direta:
- Copie o protocolo antes de inventar a exceção: quando uma equipe diz que metodologias consolidadas de Continuous Delivery, testes automatizados, SRE ou governança de dados “não funcionam na nossa cultura”, quase sempre falta disciplina de implantação, e não uma metodologia nova.
- Crie projetos-farol que provem o retorno: assim como a Salmones Antártica provou em escala comercial que o método funcionava, implante uma nova arquitetura ou ferramenta de IA em uma unidade real, meça o ganho e use esse caso para escalar pela organização.
- Forme o ecossistema ao redor: tecnologia importada sem treinamento técnico vira sucata cara. A transferência real de conhecimento exige que a equipe domine os fundamentos matemáticos e operacionais da ferramenta.
Inovar não é ter vergonha de aprender com quem está na frente. É absorver o estado da arte com tanta competência que, em poucos anos, você passa a disputar a liderança com o seu antigo professor.
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O salmão não é nativo do hemisfério sul. Nos anos 1970, a produção comercial chilena era praticamente zero, mas a geografia dos fiordes do sul lembrava a costa da Noruega.
Fonte: Banco Mundial, World Development Report 2024 (WDR 2024).
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Cesar Zanis
Arquiteto de Software e executivo de tecnologia com mais de 15 anos trabalhando com sistemas críticos, custos, dados e metas verificáveis. Nesta editoria, aplico o pensamento de quem trabalha com indicadores, processos e resultados para analisar economia, gestão pública e sociedade.
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