Sempre que discutimos o futuro econômico do Brasil, surge um falso dilema entre dois grupos. De um lado, estão os que acham que o país tem uma “vocação exclusivamente natural” para exportar soja, minério de ferro e petróleo bruto, devendo esquecer a indústria de alta tecnologia. De outro, estão os que acreditam que a única maneira de ter indústria é fechar as fronteiras, cobrar impostos altíssimos sobre produtos importados e subsidiar fábricas voltadas apenas ao consumidor doméstico.
A história econômica do Sudeste Asiático mostra que ambos estão errados. Existe um país tropical, rico em recursos naturais (petróleo, gás, óleo de palma, borracha e estanho), que nos anos 1960 tinha estrutura produtiva muito parecida com a brasileira, mas que conseguiu usar essa base para se transformar no sexto maior exportador mundial de semicondutores: a Malásia, e mais especificamente o estado de Penang.
1. A crise de 1969 e a ousadia de Bayan Lepas
No final da década de 1960, a economia da Malásia girava quase inteiramente em torno de duas commodities: borracha natural (extraída das seringueiras que, ironicamente, haviam sido levadas da Amazônia brasileira décadas antes) e minério de estanho, seguidas depois pela exploração de petróleo e gás pela estatal Petronas.
Em 1969, a ilha de Penang, na costa noroeste do país, vivia uma crise severa: havia acabado de perder seu status histórico de porto livre comercial e o desemprego passava de 15% da força de trabalho. O recém-eleito ministro-chefe do estado, Dr. Lim Chong Eu, contratou consultores internacionais para desenhar uma saída e tomou uma decisão que parecia improvável na época: transformar aquela ilha tropical em um polo mundial de manufatura eletrônica.
Em 1972, Penang inaugurou a Zona Industrial Livre de Bayan Lepas, colada à pista do aeroporto internacional da ilha. O pacote oferecido às empresas de tecnologia do Vale do Silício, da Europa e do Japão não era baseado em reserva de mercado (exigir que vendessem apenas dentro da Malásia), mas em integração logística total: isenção aduaneira para importar wafers de silício e máquinas e reexportar os chips prontos em 24 horas pelo aeroporto, segurança patrimonial, mão de obra com ensino em inglês e atendimento direto sem intermediários burocráticos.
2. Os “Oito Samurais” e a primeira fábrica da Intel fora dos EUA
Ainda em 1972, o lendário Andy Grove (que depois seria CEO da Intel) visitou Penang e escolheu um terreno ainda enlameado pelas monções em Bayan Lepas para construir a primeira fábrica da Intel fora dos Estados Unidos, com um investimento inicial de US$ 1,6 milhão e cem funcionários.
Junto com a Intel, desembarcaram quase simultaneamente outras sete gigantes globais de tecnologia, grupo que ficou conhecido na história malaia como os “Oito Samurais”: AMD, Hewlett-Packard (HP), National Semiconductor, Bosch, Hitachi (depois Renesas), Clarion e Litronix (depois Osram).
| Indicador de Transição Produtiva | Malásia / Cluster de Penang | Modelo Zona Franca Tradicional no Brasil |
|---|---|---|
| Destino principal da produção | 100% voltado à exportação e cadeias globais | Quase 100% voltado ao mercado interno protegido |
| Elo na cadeia de semicondutores | 13% do mercado global de teste e encapsulamento (ATP) | Participação residual na cadeia global de chips |
| Formação de fornecedores locais | Centenas de empresas locais de automação e precisão | Baixo adensamento de engenharia exportadora |
| Exportações anuais de eletroeletrônicos | Acima de US$ 120 bilhões por ano | Foco concentrado em commodities primárias |
3. Como não virar apenas uma “maquiladora” de galpão
Aqui reside a lição mais valiosa da Malásia para qualquer gestor público ou industrial brasileiro. Muitos países em desenvolvimento conseguiram atrair fábricas montadoras por alguns anos, mas, assim que os salários locais subiram um pouco, as multinacionais fecharam os galpões e foram embora para lugares mais baratos. Por que a Intel, a AMD, a Bosch e a HP não apenas ficaram em Penang por mais de cinquenta anos, como estão investindo dezenas de bilhões de dólares adicionais agora na década de 2020?
Porque Penang executou com maestria a transição do estágio 1i (Investimento físico) para o estágio 2i (Infusão tecnológica profunda):
- Criação de fornecedores locais liderados por ex-funcionários: nos anos 1980 e 1990, o governo de Penang e as próprias multinacionais incentivaram engenheiros malaios que haviam trabalhado por dez anos na Intel ou na HP a abrirem suas próprias empresas locais de usinagem de precisão, robótica industrial, ferramentas de teste automatizado e placas. Hoje, empresas malaias como Inari Amertron, ViTrox, Pentamaster e Greatech valem bilhões de dólares na bolsa e vendem máquinas de inspeção óptica para o mundo inteiro.
- O centro de treinamento dirigido pela indústria (PSDC): em 1989, quando começou a faltar mão de obra especializada, o estado doou o prédio, mas entregou a gestão do Penang Skills Development Centre (PSDC) diretamente para um conselho formado pelos diretores da Intel, HP, Motorola e Bosch. Os próprios engenheiros das fábricas desenhavam o currículo das aulas, garantindo que cada jovem saísse pronto para operar os equipamentos mais modernos do mundo.
Hoje, na era dos processadores de Inteligência Artificial, onde a miniaturização física da litografia esbarra nos limites do átomo, a etapa de empacotamento avançado (advanced packaging, como chiplets 2.5D e 3D) e testes de alta complexidade tornou-se um dos gargalos mais estratégicos da indústria mundial. E a Malásia detém sozinha 13% de toda a capacidade global desse segmento.
4. O que o Brasil pode aprender com Penang
O Brasil criou a Zona Franca de Manaus na mesma época (1967) em que Penang desenhava Bayan Lepas (1972). Mas fizemos a escolha inversa: desenhamos incentivos fiscais para importar kits, montar produtos longe dos grandes portos e vendê-los exclusivamente dentro do mercado interno brasileiro protegido por tarifas altas, sem obrigação de exportar um único dólar nem de competir lá fora.
A trajetória da Malásia mostra que:
- Recursos naturais e alta tecnologia são aliados, não inimigos: a renda gerada pelo petróleo, pelo agro e pela mineração deve servir para financiar infraestrutura logística, aeroportos de carga e escolas de engenharia.
- Quem não exporta não aprende o estado da arte: a verdadeira infusão tecnológica só ocorre quando suas fábricas e equipes de software são obrigadas a cumprir o padrão de qualidade, prazo e custo exigido pelas cadeias globais de suprimentos.
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No final dos anos 1960, a economia da Malásia dependia de borracha e estanho, e o estado de Penang enfrentava mais de 15% de desemprego após perder seu antigo status aduaneiro.
Fonte: Banco Mundial e arquivos históricos da Penang Development Corporation.
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Cesar Zanis
Arquiteto de Software e executivo de tecnologia com mais de 15 anos trabalhando com sistemas críticos, custos, dados e metas verificáveis. Nesta editoria, aplico o pensamento de quem trabalha com indicadores, processos e resultados para analisar economia, gestão pública e sociedade.
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